Como viver uma tragédia humana? O que dizer e
em que momento? Como reconstruir e transformar as emoções em busca de um
equilíbrio que é delicado e frágil?
Preferi me dar um tempo de digestão antes de
deixar o que quer que seja de forma escrita... Depois de um fato marcante, de
uma tragédia, sempre vem aquela tonelada de tinta sobre o papel (real ou
virtual), todo mundo tem uma opinião e brada suas
convicções. O quanto mais longe dos fatos fisicamente e emocionalmente mais
fácil de alimentar toda espécie de pseudo reflexão e pseudo análise sobre o
ocorrido.
É fácil sentir compaixão, mas as vezes até a
compaixão vem condicionada. ‘Ah mas’ se a França não se metesse nos problemas
do oriente-médio, se não fosse o agente policial da Africa, se proibisse o
humor com as religiões, sobretudo as radicais e extremistas, se tivesse outra
política internacional, se não possuísse a herança maldita do imperialismo e
das colonizações... A lista do ‘se(s)’ e dos ‘mas’ é extensa, é incontável e
sinceramente estou pouco me importando com ela, pois não justifica, tão pouco
alivia o sofrimento.
As coisas aconteceram numa proximidade tamanha
que eu prefiro me concentrar primeiro no próximo, pra depois tomar a distância
necessária. Na quarta-feira 11 de novembro foi feriado nacional e aproveitando
esse feriado peguei uns dias de folga pra ir visitar Cédric no sul (ele está em
formação para um novo trabalho e temos os dois feito essa ponte Vitré –
Montpellier frequentemente). E na manhã do dia 11 eu passei por Paris, fui de
Montparnasse à Gare de Lyon numa alegria, o fim de semana prometia, fazia sol, os
planos de desbravar o vilarejo de Saint Guilhem Le Désert como o meu chéri, o
lugar ideal para o meu passa-tempo favorito, a fotografia, tudo isso contribuía
para minha euforia contida.
Na sexta-feira 13 de novembro saímos de
Montpellier e fomos pra Saint Guilhem, chegamos inicio da noite, ventava
bastante as folhas de outono caídas no chão davam o tom da música gostosa que
ouvimos o noite toda, a descontração nos tomou, sem televisão, sem internet,
celular esquecido numa mesinha de canto, uma garrafa de vinho a dois, uma
conversa banal de casal... Fomos dormir relativamente cedo, mas perto das duas
da madrugada eu acordei num sobre-salto, sem nenhum motivo, meu celular estava
todo iluminado, resolvi alcança-lo, ainda me despertando, as mensagens não
faziam o minimo sentido, meu primo me perguntando se eu estava em segurança,
que as noticias eram horríveis, amigos me perguntando a mesma coisa, uma, duas,
três, quatro mensagens... O que era tão horrível? O que estava acontecendo? Ali
do pequeno fim de mundo que escolhemos para nos desconectar da vida corrida
nada parecia estar acontecendo... Dois ou três cliques depois todas as
manchetes estarrecedoras sobre o atentado me acordaram e me colocaram em estado
de alerta imediato. Acordei Cédric em seguida, contando do acontecido, publiquei
um status no facebook para acalmar quem pudesse se interessar, dizendo que
estávamos em segurança.
Não dormi o resto naquela noite, entre as
mensagens mais e mais frequentes de familiares, da vontade de saber o que
estava realmente acontecendo, e da simples preocupação de não saber como voltar
pra casa no domingo, uma vez que teria que passar inevitavelmente por Paris, e
da preocupação mais aguda com os amigos que vivem em Ile-de-France, foi
extremamente complicado de desacelerar o cérebro e cochilar levemente entre as
05h00 e as 08h00 da manhã. Cada check security dado via facebook por um amigo,
cada sms respondido, era um alivio, uma alegria sem lugar, porque eu tenho
certeza que muitos SMS naquela noite não tiveram resposta, que muita gente não
respondeu as chamadas no celular para acalmar seus próximos.
Sábado o assunto não saiu de novas cabeças e de
nossas conversas. Pra onde ir? E os planos de trazer um filho a esse mundo ? E
se alguma coisa acontecesse a um ou ao outro? O clima do fim de semana
romântico tinha mudado, lugares vazios, sorrisos raros. Meu pai e minha mãe
preocupados do outro lado do telefone, e todo meu esforço para acalma-los.
Voltar pra casa exigiu sangue frio. No trem
cada barulho imprevisto suscitava uma erguida de cabeça e um olhar ao redor. A
chegada na gare de Lyon a Paris, e entrada no metro. Constantemente uma voz no
microfone nos falava, nos coordenando, nos informando, o objetivo não é outro
que nos acalmar, nos fazer sentir de novo em segurança...
Na metade da minha viagem pela linha 6 de Bercy
a Montparnasse, o metro parou, os alto-falantes na estação nos mandava descer,
procedimento de pacote suspeito na próxima estação nos impedia de seguir...
Desci e rapidamente tentei imaginar como chegar a tempo a Montparnasse pro meu
próximo trem, eu ainda tinha cerca de 1h20 para terminar o trajeto. Nenhuma das
outras linhas que cruzavam a estação onde parei me ajudavam a aproximar-me da
minha estação destino. Minha intuição me dizia de dar meia volta e tentar de novo,
como essa voz que nos falava internamente está sempre certa, a linha 6 retomou
seu fluxo e cheguei finalmente no meu destino provisório. Telefonei a Cédric
para dizer que tudo ia bem, ia sempre mantendo ele informado do avançar da
viagem, o que sempre fazíamos naturalmente, naquela noite parecia indispensável.
Chegar em casa domingo a noite foi como se eu
tivesse atravessado uma fronteira imaginaria, e deixado para trás todo real
perigo, finalmente uma noite de sono completa. Na manhã seguinte o trabalho, retomar
a rotina era preciso...
O contato com os amigos de perto de longe
continuou. Os relatos daqueles que viveram a tragédia mais de perto ainda. Da
amiga que estava na rue Bichat e que as 21h voltou pra casa, porque a primeira
taça de vinho que ela tinha tomado deu dor de cabeça e mal estar e ela decidiu
voltar pra casa, santo mal estar. Do amigo que saiu no sábado a noite
desafiando o medo, e que voltou pra casa num RER quase vazio, quando sempre o
dividia com pelo menos 250 pessoas.
O medo entrou em nossas vidas, nas nossas
casas, e é difícil resistir a não deixa-lo ditar um novo modo de vida. Nas
homenagens aos mortos, os nomes aparecem, as fotos, idades, profissões, entre
eles salta aos meus olhos o nome Cédric, duas vitimas se chamavam assim. O
reconhecimento de que essa insanidade poderia ter posto fim a nossa vida, a vida
daqueles que mais amamos me terrifica. Mas a única resposta possível é continuar, viver, se iluminar. Com a certeza de que cada pessoa tem dentro de si os recursos
necessários, essa chamada resiliência, para integrar o que aconteceu e
continuar em frente, e depois de um certo tempo, encontrar talvez um senso para
o que se viveu.
CDP./
21 de novembro de 2015.
Uma das primeiras coisas que vi sobre isso foi o seu estatus no face. Fiquei feliz e agora fico de novo ao ler no relato que vocês estão pensando em filhos. Talvez o que o mundo precise é justamente ser capaz de olhar para tudo de perto. Todo absurdo, toda guerra, todo atentado, toda violência precisa ser olhado de perto, pra enxergar as lágrimas dos que sofrem as consequências, seja onde for. Em Paris, em Mariana, na Síria a dor humana é a mesma. Precisamos de mais amor e menos conflitos.
ResponderExcluirConcordo plenamante contigo Elis! Um beijo grande e saudoso!
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