sábado, 27 de fevereiro de 2016

Mecânica das emoções, souvenirs ou ensaio sobre uma visita ao osteopata...

O corpo é uma construção explendida. Ele é perfeitamente desenhado pra nos carregar vida a fora, quando digo nos carregar eu quero dizer carregar essa energia que nos anima, que não é so mecânica, e ligações quimicas, que é também emoção e alma. 
Cedo essa manhã eu tinha consulta com o osteopata. Tem mais ou menos uns 8 meses que eu sofria com uma tendinite no cotovelo, ha pelo menos 2 meses a tendinite tinha se atenuado, praticamente desapareceu com a fisioterapia, mas tinha um grão de areia na engrenagem que me impossibilitava de usar meu braço esquerto plenamente. E eu estava la pra perguntar ao osteopata de onde poderia vir o desequilibrio que me impedia meu corpo de se curar. 
Monsieur Poilane é um homem muito tranquilo e observador... Ele me examinou e seguiu pelo meu corpo os traços de uma tensão, a tensão ia direto para minha mão esquerda, ou seja, meu cotovelo sofria como um reflexo, ele não era o centro do problema, mas era ele quem soava o alarme. Ele insistia no fato que minha mão parecia ter recebido um perfuração ou uma pancada, da qual eu não me lembrava. Veio-me um insight, eu disse que meu marido e eu haviamos sofrido um acidente da transito, ha mais ou menos um ano, um pequeno acidente pra nos, que fomos tocados lateralmente por uma jovem que dirigia usando o telefone celular, mas que teve sérias consequencias para o senhor que vinha no veiculo atras do nosso, que teve uma fratura exposta da bacia. O acidente me chocou bastante na época, ele me fez reviver uma grande angustia, um sentimento de culpa, e de compaixão pelo homem que sofria e chorava nas ferragens até ser socorrido. 
Mas a vida passa rapido, semanas enterraram no esquecimento esse fato, que na verdade me lembrava ainda de outro triste acidente de anos atras em que meu querido avô perdeu a vida. Mas eu não tinha porque ruminar tudo isso, e eu segui num impulso natural de passar a outra coisa, de avançar e de não olhar pra tras. 
Entretanto, essa manhã quando Poilane me perguntou o que eu sentia sobre esse pequeno acidente, e que as emoções comprimidas dentro da minha mão começaram a falar por mim, o sentimento de culpa veio a tona, numa avalanche de lagrimas, um fato que conduzia ao outro. Toda a tensão se dissipou, e meu corpo se esvaziou de energia. Enquanto escrevo eu posso sentir essa exaustão.
De tudo isso me fica a mais profunda certeza, de que nossas dores fisicas nos falam, que elas querem conversar conosco, nos mostrar o caminho para uma cura completa em outro nivel. Eu sei que o que aconteceu essa manhã é so o primeiro passo para voltar a olhar pra mim e me dar mais tempo para compreender como meus sentimentos funcionam, que toda boa maquina precisa de manutenção, e que eu não posso negligenciar a minha.
CDP./

sábado, 21 de novembro de 2015

Mandando notícias - minha percepção do 13 de novembro 2015.

Como viver uma tragédia humana? O que dizer e em que momento? Como reconstruir e transformar as emoções em busca de um equilíbrio que é delicado e frágil?
Preferi me dar um tempo de digestão antes de deixar o que quer que seja de forma escrita... Depois de um fato marcante, de uma tragédia, sempre vem aquela tonelada de tinta sobre o papel (real ou virtual), todo mundo tem uma opinião e brada    suas convicções. O quanto mais longe dos fatos fisicamente e emocionalmente mais fácil de alimentar toda espécie de pseudo reflexão e pseudo análise sobre o ocorrido.
É fácil sentir compaixão, mas as vezes até a compaixão vem condicionada. ‘Ah mas’ se a França não se metesse nos problemas do oriente-médio, se não fosse o agente policial da Africa, se proibisse o humor com as religiões, sobretudo as radicais e extremistas, se tivesse outra política internacional, se não possuísse a herança maldita do imperialismo e das colonizações... A lista do ‘se(s)’ e dos ‘mas’ é extensa, é incontável e sinceramente estou pouco me importando com ela, pois não justifica, tão pouco alivia o sofrimento.
As coisas aconteceram numa proximidade tamanha que eu prefiro me concentrar primeiro no próximo, pra depois tomar a distância necessária. Na quarta-feira 11 de novembro foi feriado nacional e aproveitando esse feriado peguei uns dias de folga pra ir visitar Cédric no sul (ele está em formação para um novo trabalho e temos os dois feito essa ponte Vitré – Montpellier frequentemente). E na manhã do dia 11 eu passei por Paris, fui de Montparnasse à Gare de Lyon numa alegria, o fim de semana prometia, fazia sol, os planos de desbravar o vilarejo de Saint Guilhem Le Désert como o meu chéri, o lugar ideal para o meu passa-tempo favorito, a fotografia, tudo isso contribuía para minha euforia contida.
Na sexta-feira 13 de novembro saímos de Montpellier e fomos pra Saint Guilhem, chegamos inicio da noite, ventava bastante as folhas de outono caídas no chão davam o tom da música gostosa que ouvimos o noite toda, a descontração nos tomou, sem televisão, sem internet, celular esquecido numa mesinha de canto, uma garrafa de vinho a dois, uma conversa banal de casal... Fomos dormir relativamente cedo, mas perto das duas da madrugada eu acordei num sobre-salto, sem nenhum motivo, meu celular estava todo iluminado, resolvi alcança-lo, ainda me despertando, as mensagens não faziam o minimo sentido, meu primo me perguntando se eu estava em segurança, que as noticias eram horríveis, amigos me perguntando a mesma coisa, uma, duas, três, quatro mensagens... O que era tão horrível? O que estava acontecendo? Ali do pequeno fim de mundo que escolhemos para nos desconectar da vida corrida nada parecia estar acontecendo... Dois ou três cliques depois todas as manchetes estarrecedoras sobre o atentado me acordaram e me colocaram em estado de alerta imediato. Acordei Cédric em seguida, contando do acontecido, publiquei um status no facebook para acalmar quem pudesse se interessar, dizendo que estávamos em segurança.
Não dormi o resto naquela noite, entre as mensagens mais e mais frequentes de familiares, da vontade de saber o que estava realmente acontecendo, e da simples preocupação de não saber como voltar pra casa no domingo, uma vez que teria que passar inevitavelmente por Paris, e da preocupação mais aguda com os amigos que vivem em Ile-de-France, foi extremamente complicado de desacelerar o cérebro e cochilar levemente entre as 05h00 e as 08h00 da manhã. Cada check security dado via facebook por um amigo, cada sms respondido, era um alivio, uma alegria sem lugar, porque eu tenho certeza que muitos SMS naquela noite não tiveram resposta, que muita gente não respondeu as chamadas no celular para acalmar seus próximos.
Sábado o assunto não saiu de novas cabeças e de nossas conversas. Pra onde ir? E os planos de trazer um filho a esse mundo ? E se alguma coisa acontecesse a um ou ao outro? O clima do fim de semana romântico tinha mudado, lugares vazios, sorrisos raros. Meu pai e minha mãe preocupados do outro lado do telefone, e todo meu esforço para acalma-los.
Voltar pra casa exigiu sangue frio. No trem cada barulho imprevisto suscitava uma erguida de cabeça e um olhar ao redor. A chegada na gare de Lyon a Paris, e entrada no metro. Constantemente uma voz no microfone nos falava, nos coordenando, nos informando, o objetivo não é outro que nos acalmar, nos fazer sentir de novo em segurança...
Na metade da minha viagem pela linha 6 de Bercy a Montparnasse, o metro parou, os alto-falantes na estação nos mandava descer, procedimento de pacote suspeito na próxima estação nos impedia de seguir... Desci e rapidamente tentei imaginar como chegar a tempo a Montparnasse pro meu próximo trem, eu ainda tinha cerca de 1h20 para terminar o trajeto. Nenhuma das outras linhas que cruzavam a estação onde parei me ajudavam a aproximar-me da minha estação destino. Minha intuição me dizia de dar meia volta e tentar de novo, como essa voz que nos falava internamente está sempre certa, a linha 6 retomou seu fluxo e cheguei finalmente no meu destino provisório. Telefonei a Cédric para dizer que tudo ia bem, ia sempre mantendo ele informado do avançar da viagem, o que sempre fazíamos naturalmente, naquela noite parecia indispensável.
Chegar em casa domingo a noite foi como se eu tivesse atravessado uma fronteira imaginaria, e deixado para trás todo real perigo, finalmente uma noite de sono completa. Na manhã seguinte o trabalho, retomar a rotina era preciso...
O contato com os amigos de perto de longe continuou. Os relatos daqueles que viveram a tragédia mais de perto ainda. Da amiga que estava na rue Bichat e que as 21h voltou pra casa, porque a primeira taça de vinho que ela tinha tomado deu dor de cabeça e mal estar e ela decidiu voltar pra casa, santo mal estar. Do amigo que saiu no sábado a noite desafiando o medo, e que voltou pra casa num RER quase vazio, quando sempre o dividia com pelo menos 250 pessoas.             

O medo entrou em nossas vidas, nas nossas casas, e é difícil resistir a não deixa-lo ditar um novo modo de vida. Nas homenagens aos mortos, os nomes aparecem, as fotos, idades, profissões, entre eles salta aos meus olhos o nome Cédric, duas vitimas se chamavam assim. O reconhecimento de que essa insanidade poderia ter posto fim a nossa vida, a vida daqueles que mais amamos me terrifica. Mas a única resposta possível é continuar, viver, se iluminar. Com a certeza de que cada pessoa tem dentro de si os recursos necessários, essa chamada resiliência, para integrar o que aconteceu e continuar em frente, e depois de um certo tempo, encontrar talvez um senso para o que se viveu. 

CDP./
21 de novembro de 2015.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

A cesta imposta, ou uma cronica sobre legumes e escolhas...

Desde abril eu faço parte de uma associação que se chama ‘Grãos da AMAP’. O objetivo da associação é reunir pessoas interessadas em adquirir legumes orgânicos semanalmente. Para isso a associação se vale de um agricultor dos entornos, que é encarregado de cultivar legumes e verduras da estação e nos entregar todas as quartas-feiras, das 18h30 as 19h30, na 'maison des quartiers', uma espécie de centro comunitário.
Entre nós associados, nos organizamos para as permanências, uma dupla por semana ajuda Thomas, o agricultor a descarregar o caminhão, dispor os legumes sobre as mesas, instalar as balanças, escrever nas ardosias a composição semanal das cestas, que se organizam por valor e ajudar novatos a se servir, dar informação, normalmente cada um se serve, a grande parte é habituada, não há nenhum tipo de fiscalização... é momento também de conversar um pouco com Thomas que sempre dá dicas de como preparar esse ou aquele legume.
Tem sempre de 3 ou 4 legumes por semana, em função do tamanho da cesta que escolhemos no início da estação, como em casa somos apenas Céd e eu, escolhi a menor, que vale 7 euros.
Então, desde o começo da primavera a rotina é a mesma, todas as quartas ir buscar a cesta e com ela preparar refeições durante a semana.  O conteúdo da cesta é surpresa. Depende do que o Thomas semeou, em função da estação, e sobretudo do que deu pra ser colhido.
Nesse espírito eu me propus a preparar tudo que me fosse entregue. Começamos a primavera com cebolas novas, alho, funcho, diversos tipos de alface, rabanete rosa, beterraba... Nunca gostei de beterrabas cozidas pelo gosto terroso predominante, então decidi fazê-las cruas, cortadas bem fininhas, com salsa e bem temperadas com vinagre e um pouco de sal, para minha surpresa gostei, e ainda aproveitei as folhas, refogadas.    
A partir de maio tivemos abobrinhas todas as semanas, haja imaginação para fazer coisas diferentes. Os tomates, berinjelas, pepinos chegaram em julho. Junto com o manjericão, que adoro de paixão, eu os colocava dentro de um grande copo com água, que ia trocando quase todos os dias, eles duravam 2 semanas, até floresciam no balcão enquanto eu usava cada folhinha pra dar um gosto especial em molhos ou pra fazer pesto, ou simplesmente temperar peito de frango.
Em agosto se somaram os pimentões, pimentas, repolhos roxos...  E os tomates se tornando mais e mais abundantes e de diferentes variedades.
As batatas novas apareceram em pequena quantidades, na minha opinião Thomas estoca, as batatas ainda cobertas de terra pro inverno, quando a estação mudará nossos hábitos e será um pouco menos abundante.
Ainda me restam 3 semanas de ‘panier’ de verão, essa deliciosa brincadeira repetirei na estação invernal por inúmeras razões, é super saudável, os legumes orgânicos tem um gosto muito mais concentrado, é ecológico, claro, nada de comer tomate o ano todo, porque depois de setembro eles vem de muito longe e com grande impacto de carbono, o melhor é acompanhar a estação, a imposição da cesta me faz buscar novas receitas e descobrir novos sabores... E a metáfora é excelente, a vida é uma cesta imposta, ao invés de jogar fora o que não gosta, ou supõe que não gosta, melhor é pensar numa receita, numa forma de aproveitar tudo e se deliciar e se regalar com tudo que a vida nos proporciona.

CDP./  


terça-feira, 25 de junho de 2013

Um olhar ao redor – ou ensaios sobre o obvio

Enquanto os velhos países desenvolvidos se esforçam e se debatem para sair da recessão, os membros do BRIC mostram sua capacidade de crescimento, mesmo em desaceleração, esses países foram capazes de tirar milhões da pobreza e criar novas classes sociais consumidoras, as ditas classes: C, D, E, etc.
Aqui no velho continente, a crise tem levado muitos a manifestarem-se, movimentos como ‘os indignados’ e 'occupy' se propagaram nos últimos anos. A Europa, mais precisamente, os países do sul querem voltar a crescer, poder oferecer empregos, assistência social, marcas registradas dessas velhas democracias testadas pelo tempo e por protestos.

Então, como entender o que querem os manifestantes nas ruas de Moscou, Istambul e São Paulo?
Se existisse um índice para medir a maturidade das estruturas sociais e políticas de um país emergente, este não estaria atrelado ao crescimento do PIB. Sobre os grandes sujeitos trazidos a tona pelos movimentos sociais: ilegalidades, corrupção, meio-ambiente, liberdades individuais, tratamento das mulheres... Vê-se claramente que o sistema político não progride como a economia.

A classe média, mais numerosa e melhor orientada/educada, graças ao crescimento econômico não se satisfaz com a progressão do PIB.

Na euforia da ascensão, os dirigente de países emergentes, como o Brasil, querem traduzir o sucesso econômico em sinais de poder e prestigio internacional, contudo, a classe média quer, antes de mais nada, transporte público de qualidade, médicos nos hospitais, boas escolas para suas crianças, um ar respirável, justiça e políticos honestos.

A experiência de muitas partes do mundo (hoje amplamente conhecida pela mundialização) mostra que o sonho dos emergentes é sim possível, e então se espera que os responsáveis políticos coloquem isso em pratica. Agora a sociedade está dizendo alto e claro.


CDP./   

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Resiliência, a melhor das estratégias

É inevitável não olhar para trás em busca de suporte para o futuro. O passado não prega peças, ele é fonte de aprendizagem, o meu, trato com respeito, por tudo que proporcionou-me, através dos incontáveis erros e acertos.
Após uma grande renúncia por uma vida mais equilibrada, estou aos poucos reconstruindo uma nova vida profissional, o que não tem sido fácil por diversos fatores como a mudança de país, perfil profissional, nível de domínio da lingua, discriminação, crise economica européia e muitos outros motivos que nem me dou conta. 
No início sentia-me muito frustrada com respostas negativas e passava dias e dias pensando, o que eu poderia ter feito diferente. A resposta dentro de mim é nada, não poderia fazer nada diferente, porque fiz o que podia fazer.
Tento um dia de cada vez, ser menos ansiosa com relação ao meu futuro, não desisti do que quero, mas tenho buscado ser resiliente, não há nada que eu possa mudar, tudo que posso fazer eu faço, sem me desesperar, nenhuma situação é permanente, e é preciso manter a serenidade para enxergar as oportunidades quando estas se mostrarem. 
É com calma e confiança, de que nada que me seja necessário faltará, que me resigno e aceito o que a vida me reserva. Amém!   




         

sábado, 1 de dezembro de 2012

Cinema - Amour

Eu vinha planejando há semanas ir ao cinema para ver Amour, filme vencedor da Palme d'Or no festival de cinema de Cannes, mas a correria não me permitou fazê-lo antes de hoje.
Pela sinópse eu sabia um pouco o que esperar. Na primeira cena Anne e George aparecem numa platéia, sentados nas cadeiras vermelhas, como nós espectadores de cinema... Acredito que ai começa a identificação. Anne e George são pessoas cultas, professores de música aposentados, octagenários, que vivem em um velho apartamento parisiense. 
Um dia, tomando o café da manhã, Anne tem um AVC o que vai mudar pra sempre a vida do casal.
George e Anne enfrentam com coragem e sem lágrimas nos olhos essa difícil fase da vida conjugal. O amor que os uni é colocado a prova.
Não contarei o final pra não estragar a surpresa dos que talvez desejem assistir.
Só adianto que os espectadores ao fim do filme permaneceram sentado, passou-se uns 3 minutos antes que as pessoas estarrecidas caminhassem para a saída, sem nenhuma palavra, sem nenhum ruido. 
Fazia tempo que não via um filme assim, delicado e comovente...
Talvez nunca mais volte a assisti-lo, mas ele vai estar guardado entre os melhores que já vi. 
Se tiverem a oportunidade de ver, vejam, vale a pena, vale o ingresso, vale a reflexão. 


  


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Hallow Evening – ‘A noite sagrada’


O halloween é uma festa de origem celta, tratando-se de uma comemoração pelo fim do verão (fim das colheitas). Nestas comemorações se homenageavam os mortos, que para os celtas habitavam 'um lugar de felicidade perfeita, onde não haveria fome nem dor'. A festa era celebrada com ritos presididos pelos sacerdotes druidas, que atuavam como "médiuns" entre as pessoas e os seus antepassados. Dizia-se também que os espíritos dos mortos voltavam nessa data para visitar seus antigos lares e guiar os seus familiares rumo ao outro mundo.
Eu nunca tive por hábito celebrar o halloween, entretanto em 2009, tive o prazer de comemorá-lo em Dublin, com direito ao carnaval que se faz nessa noite. Lembro-me perfeitamente como se fosse hoje, era um sabado, e naquela tarde eu começei a fazer a mudança da casa da família irlandesa que me acolheu, para o apartamento, com os novos colegas estrangeiros. A noite eu deveria encontra-los na O’connel Street para irmos todos juntos as comemorações no Temple Bar.
Ainda no ônibus com destino ao centro, eu via todo aquele movimento, todas aquelas pessoas fantasiadas, engarrafamento, muito barulho, e eu, récem chegada... Aquilo para mim era présagio de uma noite inesquecível.
Chegando na O’connel encontrei com o Daniel (colega brasileiro que estava me cedendo a vaga no apartamento) e um dos outros flatmates, um tal Cédric. Fomos todos juntos encontrar a Hyeri, a colega coreana, com quem eu dividiria o quarto. Uma vez reunidos tentamos encontrar um lugar para nos divertir, todos os bares cheios, temple bar lotado de gente, confesso que aquela festa me assustava um pouco, mas o meu flatmate francês parecia perceber em meus olhos minha hesitação, e ele ficou ali do meu lado a noite inteira, a nossa comunicação era precária, nosso nível de inglês vexatório. Mas insistimos, ele me ofereceu uma bebida, timidos dançamos um pouco, rimos um bocado. E voltamos para casa todos juntos em baixo de uma chuva gelada. Eu não sentia meus pés, talvez porque aquela noite meus pés não pisaram o chão. 
Era visível o meu encantamento por aquele moço gentil. Naquela noite nada foi normal, um diálogo sem palavras, nossos olhos se entendiam... Talvez, como diz a tradição do halloween, nossos antepassados voltaram para nos visitar e nos guiaram para esse encontro tão esperado.
Ainda levamos um mês para reconhecer o interesse mútuo, e nos render-mos à paixão, mas nós dois sabiámos, que desde aquela noite mágica já estávamos enlaçados... E isso já faz três anos. 
CDP./